Já viu como é produzida a sua eletricidade?

Uma das formas que temos de reduzir a nossa pegada ecológica é reduzindo o nosso consumo energético. Pode também olhar para a sua fatura da luz para compreender melhor de onde vem a sua energia elétrica e escolher ou uma empresa mais limpa ou um plano energético de energias renováveis. 

As empresas que operam em Portugal produzem eletricidade a partir de diferentes combustíveis, e há uns que poluem mais e outros que poluem menos. Na mistura usada para produzir a energia que nos chega a casa, há um pouco de tudo: carvão, gás natural, fuelólio, energia hídrica, eólica, entre muitas outras. A quantidade de fontes poluentes que uma empresa usa para produzir a nossa eletricidade vai, depois, influenciar a poluição que produz, sob forma de emissões de dióxido de carbono e outras. 

Enquanto consumidores, temos uma ferramenta poderosa ao nosso alcance para obrigar as empresas a poluírem menos: o voto com a nossa carteira. Por isso, decidimos fazer este artigo, para ajudar quem lê a compreender melhor o significado da zona “Desempenho energético” da fatura da luz.

Rotulagem energética

Tal como acontece com os carros, que têm um determinado desempenho no que toca ao consumo, as empresas de energia também têm um desempenho – neste caso, ambiental – consoante o tipo de combustível que usam.

As faturas de eletricidade disponibilizam informação sobre a eletricidade que a empresa produziu, e que nós consumimos, na zona Desempenho Energético. É provável que encontre esta informação no fim da fatura, com um pequeno gráfico redondo que indica a percentagem com que cada tipo de combustível contribuiu para a energia que lhe chegou a casa. Nessa zona poderá também ver quantos quilos de CO2 o seu consumo elétrico gerou.

Esta informação é muito útil pois diz-nos se a empresa em questão está ou não preocupada em diminuir a sua pegada ecológica. Todavia, nem todas as fontes energéticas são fáceis de compreender. 

A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) lista os vários tipos de combustíveis e o seu significado. Neste momento, existem 12 tipos de produção energética, alguns dos quais extremamente poluentes. É o caso do carvão e do fuelóleo. 

Empresas e transparência

Apesar de a lei obrigar as empresas a apresentarem informação sobre as suas emissões e sobre a origem da energia que produzem, nem sempre é fácil encontrar esta informação.

A grande maioria das empresas não disponibiliza esta informação de forma clara e de fácil acesso nos seus sites, e é necessário algum trabalho para encontrar a informação sobre a origem da energia.

EDP

Apesar de não ser fácil encontrar a origem da energia no site da EDP (tem de navegar até à parte de baixo da página > Perguntas Frequentes > Qual é a origem da energia?), a verdade é que a EDP é uma das empresas que agrega esta informação de forma mais clara e fácil de compreender.

Ficamos logo a saber, por exemplo, que no segundo trimestre de 2019, 54,28% da energia proveio de fontes renováveis. Curiosamente, se somarmos os valores apresentados pela EDP no seu gráfico, o valor obtido é inferior: 53,88% de renováveis e não 54,28%.

O carvão e o gás natural têm um peso de 20,3% e 17,5% respetivamente, e a EDP não recorre à produção de energia nuclear para o seu mix energético.

Endesa

Na Endesa é preciso navegar até Quem somos > Origem da Energia para ficarmos a saber o desempenho ambiental desta empresa. Ao contrário da EDP, a Endesa não nos diz logo qual a percentagem de energia que foi produzida a partir de fontes renováveis. É necessário fazer contas porque só são apresentados os valores para os diferentes meios de produção energética. 

Na Endesa, 54,95% da energia provém de fontes renováveis. O carvão tem um peso de 19,51% e o gás natural um peso de 17,79%.

Iberdrola

A Iberdrola é a empresa onde é mais difícil encontrar a informação sobre a origem da energia. Só conseguimos encontrar esta informação clicando em Mapa do site > Sobre nós > Rotulagem de energia. Chegados aqui, vemos que infelizmente a empresa só disponibiliza informação sobre o seu desempenho no ano de 2017. Quando analisamos os meses, verifica-se que a informação termina em outubro de 2018, o que não é adequado dado que estamos praticamente na segunda metade de 2019.

Ficamos a saber que em 2017 a empresa teve péssimo desempenho ambiental, e que apenas 25% da sua energia teve origem em fontes renováveis. O carvão contribuiu com 39% da energia gerada e o gás natural com 22%, valores altíssimos.

Em outubro de 2018, as energias renováveis representavam 36% da produção, o carvão 34% e o gás natural 16%. 

De notar, ainda, que 7% da energia produzida proveio de centrais nucleares.

Energia Simples

Esta empresa facilita a vida aos consumidores. Basta ir ao menu Apoio ao Cliente e aparece logo o link Rotulagem Energética. Nesta página, vemos que na Energia Simples, o produto da empresa, 44,26% da energia foi produzida a partir de fontes renováveis. O carvão tem um peso de 22,46% na produção da empresa, e o gás corresponde a 20,48%.

Yes Low Cost Energy

Na Yes Low Cost Energy também não é fácil descobrir onde está a informação sobre a origem da energia. Mas pode encontrá-la em Informação Útil > Impactes ambientais. A empresa não deixa claro de que ano é a informação prestada, mas ficamos a saber que 55% da energia provém de fontes renováveis. O carvão representa 19,5% no mix da empresa e o gás 17,8%.

Desempenho ambiental poderia ser bem melhor

Nenhuma das empresas que consultámos tem um desempenho particularmente impressionante no que toca às emissões de CO2. Aliás, isto mesmo é refletido pelas altas emissões de CO2 que o país ainda gera. Enquanto escrevemos estas linhas, Portugal está a emitir 415 gramas de CO2 por kWh de eletricidade gerada, o que é um valor muito alto e nos coloca em linha com os piores poluidores da Europa.

Como já tivemos oportunidade de dizer no passado, é possível contratar energia exclusivamente renovável com várias das empresas que operam no mercado nacional, mas cabe ao consumidor estar informado sobre essa possibilidade e sobre as opções que existem no mercado.

Márcio Florindo

Foi jornalista de tecnologia durante 15 anos e mais recentemente dedicou-se aos temas da mobilidade elétrica e energias renováveis. É apaixonado por ciência desde que se lembra.

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