Fiat compra créditos verdes à Tesla para evitar pagar multas por poluição

A Fiat vai pagar “centenas de milhões de euros” à Tesla para evitar pagar multas pesadas à União Europeia por excesso de emissões dióxido de carbono (CO2).

As novas regras da União Europeia para as emissões de CO2 estão a apertar e a partir de 2020 as médias das frotas das várias marcas a operar em território Europeu terão de descer dos atuais 120g de CO2 por quilómetro, para 95g de CO2/km. Em 2018, a média da Fiat situou-se nos 123g de CO2/km, o que a coloca acima do permitido.

A lei permite que as empresas se juntem em grupos com marcas cujos veículos emitam menos poluição, para diminuir as médias de CO2 emitido. Na prática, isto implica que quem polui mais compre créditos de CO2 a quem polui menos. É o que está a acontecer no negócio entre a Fiat e a Tesla.

Atrasada na eletrificação

A Fiat Chrysler não tem apostado em tecnologias limpas como a elétrica, nem em veículos de transição como os híbridos para diminuir as emissões dos seus veículos, e é vista como uma das empresas mais atrasadas neste campo e a mais provável de não conseguir cumprir as novas regras de poluição da União Europeia.

O acordo agora anunciado com a Tesla vai permitir à Fiat baixar as médias de emissão dos seus veículos, dado que os Tesla são elétricos e não emitem CO2.

Apesar de não se especificar exatamente quanto é que a Fiat vai pagar à Tesla, certamente será muito menos que as potenciais multas que pagaria à União Europeia por não cumprir as novas normas de poluição. Estima-se que os valores a pagar podem ascender a 2 mil milhões de euros em 2021, quando as novas regras de 95g de CO2 por quilómetro se tornarem lei.

Esta não é a primeira vez que a Tesla ganha dinheiro com um negócio semelhante. Aliás, a empresa tem vendido créditos de CO2 a outras marcas de automóveis nos EUA, onde a prática é corrente. Só o ano passado ganhou cerca de 100 milhões de euros com este tipo de negócios.

A nossa opinião

Percorrendo os comentários a esta notícia, vê-se que muitos leitores ficaram chocados com o negócio, vendo-o quase como uma traição da Tesla que, no fundo, está à ganhar dinheiro à conta da poluição. Por outro lado, há quem receie que ao se permitir este negócio, a União Europeia esteja a deixar a Fiat arrastar o estado de coisas em vez de a obrigar a eletrificar os veículos que vende.

Ambas as opiniões são válidas, mas consideramos que a Tesla tem sido uma força impulsionadora na direção da eletrificação, sem a qual as marcas tradicionais não estariam, muito provavelmente, a criar automóveis elétricos à velocidade a que vemos atualmente. A Tesla obrigou estas marcas a acelerarem os seus planos, pelo que neste momento todo o dinheiro extra que consiga adquirir é bem-vindo. Para já, diríamos, o mais importante é garantir a estabilidade financeira da Tesla para que continue a pressionar os fabricantes tradicionais a transitar rapidamente para a tecnologia elétrica. Mas isto não significa que apoiemos a medida. Marcas como a Fiat não podem continuar a produzir para sempre carros a combustão. É aqui que os consumidores podem fazer valer a sua opinião votando com a carteira e apostando em marcas que estejam mais bem posicionadas na eletrificação.

Márcio Florindo

Foi jornalista de tecnologia durante 15 anos e mais recentemente dedicou-se aos temas da mobilidade elétrica e energias renováveis. É apaixonado por ciência desde que se lembra.

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